Adelino Mont'Alverne

Rise of the Robots: tópicos sobre um futuro sem trabalho

No livro “Rise of the Robots: Technology and the Threat of a Jobless Future”, Martin Ford aborda transformações significativas na relação entre trabalhadores e máquinas. Essas transformações alteram uma premissa básica sobre tecnologia: Máquinas deixam de ser apenas ferramentas para aumentar a produtividade dos trabalhadores. Elas se tornam os próprios trabalhadores.

A partir daí, Ford especula sobre uma questão central: O aceleramento da tecnologia pode ameaçar todo o sistema de trabalho ao ponto em que uma reestruturação fundamental pode ser necessária para que a prosperidade siga seu curso?

Rise-of-the-Robots

Robôs-Códigos

Mas primeiro, sobre que máquinas estamos tratando? É natural pensarmos inicialmente sobre um tipo de robô retratado em tantos livros e filmes. Um tipo de reprodução das características e funções humanas, potencializadas por recursos mecânicos, que poderiam torná-los mais fortes e rápidos. Robôs assim já povoam diversas indústrias há muito tempo, realizando tarefas repetitivas ou que representem algum tipo de risco aos trabalhadores humanos.

No entanto, há outras constituições dos robôs a considerar. Robôs que não são formados apenas por elementos mecânicos, mas também por softwares que processam dados, acessam servidores remotos, realizam cálculos complexos em períodos de tempo inacessíveis para trabalhadores humanos. E ainda aqueles que são apenas códigos, algoritmos, capazes de criar seu próprio aprendizado, estratégias para realização de tarefas, além de continuamente alterar sua própria constituição.

Um dos mais importantes propulsores da nova revolução dos robôs é o conceito de Cloud Robotics. Isso representa a transferência para a nuvem da maior parte da inteligência que comanda robôs, transformando-os em agentes suportados por hubs de computação. Isso na prática significa que muito da computação necessária para o pleno funcionamento de robôs avançados migra para pesados data centers, permitindo o surgimento de máquinas mais flexíveis, atualizáveis e baratas que não precisam conter todo o poder de processamento e memória dentro de si. Elas apenas precisam de altas taxas de transferência de dados para acessar recursos disponíveis na rede. Se uma máquina aplica inteligência para aprender e se adaptar ao ambiente, o novo conhecimento adquirido se torna disponível de forma instantânea para outras máquinas da rede, tornando mais rápido escalar esse aprendizado para uma grande quantidade de robôs. A Google, por exemplo, já investe em Cloud Robotics, oferecendo suporte e interfaces que permitem a essas máquinas o uso de serviços criados para os dispositivos com o sistema Android.

Nicholas Carr, no livro “The Big Switch”, também destaca uma diferença fundamental em relação aos avanços em tecnologia de informação. Diferente de avanços tecnológicos anteriores, TI encapsula inteligência, já que computadores podem tomar decisões e resolver problemas, se tornando máquinas que em certo (limitado) sentido “pensam”.

A Lei de Moore tem sido uma referência importante sobre o tempo de vida das inovações em diversas áreas. A aceleração dos avanços em hardware sugere que a indústria conseguiu manter um ritmo de curvas “S” em sequência. Em 18 meses um produto inicia seu declínio ao mesmo tempo que seu sucessor inicia sua ascenção. Mas o ambiente dos códigos tem outras regras, com taxas de progresso orientadas pela velocidade dos algoritmos, que em diversos casos está muito além do hardware. Ford cita uma análise do Instituto Zuse, de Berlim, que a partir dos computadores e softwares de 1982 estipulou o tempo de 82 anos de processamento para a resolução de um problema altamente complexo. Em 2013, o mesmo problema poderia ser resolvido em apenas 1 minuto. A redução de tempo, em um fator de 43 milhões, contou com hardware 1.000 vezes mais rápido, para os algoritmos o aumento de desempenho foi de 43.000 vezes.

Destruição X Criação

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Para o emprego de forma geral, a nova fase da revolução dos robôs pode criar um efeito de destruição x criação.

A “destruição” vai afetar inicialmente empresas de trabalho intensivo, em áreas como varejo, alimentação e serviços. O setor de serviços envolve a ampla maioria dos trabalhadores e já evidencia os impactos dessa onda de automação através da disseminação de caixas eletrônicos e diversos serviços do tipo self-service. Milhões de empregos estarão em risco, principalmente aqueles de menor salário. A startup Momentum Machines oferece uma máquina de produção de hamburguers gourmet capaz de realizar todas as etapas sem nenhuma interação humana, atendendo a uma infinidade de variações para cada cliente, como tipo de molho, ponto da carne, etc, numa velocidade de 400 unidades por hora. Não apenas a velocidade da produção é impossível para um trabalhador humano, mas principalmente o registro e memória das preferências de cada cliente.

Mas não vamos considerar apenas os trabalhos de menor salário. O atual mercado global de ações é o campo de trabalho de exércitos de algoritmos que batalham entre si pela conquista de lucros financeiros em operações realizadas em escalas inacessíveis para nós, tanto em relação ao tempo para tomada de decisões, quanto ao volume de dados analisados para tal. Além de substituir analistas bem treinados no mercado de ações, os algoritmos que constituem o que vem sendo chamado de algotrade, também desenvolvem progressos que estão além do controle e entendimento dos programadores que os desenvolveram.

Enquanto isso, a “criação” será responsável pelo surgimento de novas empresas e indústrias, que, no entanto, não contratarão muitos trabalhadores. Em 2005, o YouTube foi criado por três pessoas. Dois anos depois, quando foi adquirida pelo Google por U$ 1.65 bilhão, a empresa tinha apenas 65 trabalhadores, a maioria técnicos de alto nível, numa relação de U$ 25 milhões/trabalhador. Em 2012, foi a vez do Facebook adquirir o Instagram por U$ 1 bilhão, que na época tinha uma equipe de 30 pessoas, ou U$ 77 milhões/trabalhador. Já em 2014, também o Facebook adquiriu o WhatsApp por U$ 19 bilhões. A empresa era formada por 55 pessoas, numa impressionante relação de U$ 345 milhões/trabalhador. Ou seja, podemos estar seguindo em direção a um ponto em que a criação de empregos cada vez mais será menor, incapaz de atender plenamente a toda a força de trabalho futuramente disponível. Será o fim de um ciclo virtuoso, mantido pela transformação dos trabalhadores em consumidores da própria produção.

Imigrantes Invisíveis

Também é interessante observar um ponto discutido pelo autor sobre a falta de percepção das autoridades em relação aos novos trabalhadores digitais. Há uma grande preocupação nos EUA sobre a imigração de trabalhadores estrangeiros interessados em oportunidades de baixa qualificação no país. Uma parte considerável desses imigrantes vai aos EUA em busca de tipos de trabalho que já não interessam aos cidadãos americanos, nas áreas de construção, limpeza e serviços de alta rotatividade. As regras e políticas em relação a esses trabalhadores são fonte de controvérsias e intenso debate. No entanto, não há praticamente nenhuma preocupação em relação a serviços realizados por robôs-códigos, que mesmo baseados em servidores em países distantes, cruzam fronteiras a qualquer momento para atender demandas do mercado interno através de serviços online. Esses trabalhadores digitais entram nos EUA virtualmente, ameaçando de forma significativa trabalhadores de alto nível técnico, ocupando funções que realmente interessam aos americanos.

 

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